segunda-feira, 19 de junho de 2017

SEU LIVRO É MINHA CASA

A boa leitura é como um abraço de alma, de dedinhos esticados, tatuando a pele com as digitais da fantasia e da eternidade. Eu aprendi a olhar as pessoas como obras literárias, e, por isso, costumo abraça-las de alma nua, somente para ver a palavra que fica. De tanto contempla-las ao avesso da lógica, por entre lentes deformadoras e "olhar borboleta", a vida passa a reverenciar a metáfora, o cotidiano, o minúsculo, o menor, o invisível, o polegar, a lagarta de fogo, a formiga, a flor carcomida, o deserto, o inferno, dos Quintos e de Quinca, das  miopias e das formas rudes que se metamorfoseiam em história e poesia. De uma leitura a outra, quando encontro gente com "jeito de livro", e sou definitivamente encantado por pessoas assim, não penso em outro movimento a não ser morar por entre aquelas páginas, como expectador privilegiado do delírio fascinantes dos personagens sensíveis e Quixotescos, dos segredos indizíveis de travesseiros, dos absurdos convenientes, dos orgasmos gritados, das lágrimas que molham o lençol do esquecimento, do medo do amanhã, o desespero do próximo ato, cujos dedos úmidos do tempo de agora, e da literatura de sempre, vão descortinando. Só existo ali, decidi me fazer também personagem da sua criação, e deixar para os pragmáticos da vida real as folhas do meu próprio livro de regras, que voam secas, desprendidas da raiz e da loucura, trovando versos que choram saudades de um amor que não passou do prólogo, e de uma existência tão quadrada quanto perdida. Decidi, portanto, habitar na sua imaginação, deixando fruir o enredo do porvir em doces e escrotas divagações. Eu só serei poesia, se tu fores... flores... for.

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